terça-feira, 6 de novembro de 2007

Os PES pelas mãos

"Posso afirmá-lo sem reservas: a Europa assistiu esta semana a uma das maiores manifestações de falta de espírito democrático de que temos memória. Um grupo de senhores poderosos resolveu impor à generalidade dos cidadãos um conjunto de regras novas, muitas das quais inúteis ou até nocivas, sem as submeter a referendo. Pergunto: como é que os criadores do Pro Evolution Soccer 2008 se atreveram a introduzir no jogo a hipótese de simular grandes penalidades sem consultarem primeiro os jogadores? É um escândalo.

Receio que a discussão em torno do Tratado de Lisboa tenha relegado para segundo plano o lançamento do jogo de vídeo PES 2008. É sempre assim: as coisas verdadeiramente importantes acabam esquecidas nesta nossa sociedade que só se preocupa com fait divers. Mas nem todas as jóias do mundo conseguiriam comprar o meu silêncio perante a injustiça e a iniquidade. Dinheiro, sim. Mas com jóias não vão lá.

A verdade é que a nova versão do PES apresenta novidades inadmissíveis. Quando vi que o jogo trazia na capa o Cristiano Ronaldo e incluía pela primeira vez os estádios dos grandes clubes portugueses (e também os do Porto e do Sporting, curiosamente), eu desconfiei logo que não vinha aí coisa boa. E acertei: no novo PES, um jogador tem a possibilidade de fingir que sofreu falta (ao que parece, além das fotografias para a capa, o Cristiano deu dicas para o jogo propriamente dito), e pode agarrar na camisola do adversário. Significa isto que um jogador como eu, que joga dentro do rigoroso respeito pelas regras do futebol, vai ter de se adaptar a uma nova realidade. Eu, que era absolutamente soberbo no PES 6, não passo agora de um jogador que é apenas maravilhoso no PES 2008. Calculem o meu desapontamento quando constato que as horas e horas que passei a jogar as versões anteriores deste jogo não foram, ao contrário do que estava convencido, momentos preciosos de enriquecimento pessoal, mas sim tempo deitado à rua. Ele há cada surpresa na vida de um homem…

O que vale é que eu não sou pessoa de desistir facilmente. Há que iniciar rapidamente o processo de reaprendizagem, um esforço sério que requer a ajuda de todos. O frigorífico já está abastecido de cerveja e os amigos estão a começar a chegar. E a minha mulher também está empenhada nisto. Eu bem vi o empenho estampado nos seus olhos, enquanto ela fazia a mala, no dia em que eu trouxe o jogo para casa. "


Ricardo Araújo Pereira na crónica da edição nº 765 de 31 Outubro 2007 da revista Visão